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A letalidade policial não mudou desde os Crimes de Maio

  • Foto do escritor: Colegiado FPSPPDSP
    Colegiado FPSPPDSP
  • 16 de jul.
  • 5 min de leitura

Dona Débora (Mães de Maio), Ana e Evandro, sobrevivente baleado na Operação Escudo
Dona Débora (Mães de Maio), Ana e Evandro, sobrevivente baleado na Operação Escudo

Vinte anos após os Crimes de Maio de 2006, os dados mostram que a distribuição territorial da letalidade policial em São Paulo permanece concentrada nas mesmas regiões historicamente marcadas pela desigualdade.

Em maio de 2006, após ataques atribuídos ao Primeiro Comando da Capital (PCC) e em meio à resposta das forças de segurança, cerca de 505 civis foram mortos na capital paulista e na Baixada Santista. Considerado um dos episódios mais graves de violência de Estado da história recente do país, o caso segue como referência para compreender a relação entre segurança pública, violência policial e desigualdade territorial.

Duas décadas depois, 2ª Edição do Mapa da Letalidade Policial por Batalhão (Capital e Baixada Santista) revela que as mortes decorrentes de intervenção policial continuam concentradas em territórios como Parque São Rafael, São Mateus e Teotônio Vilela, na zona leste; Capão Redondo e Jardim Ângela, na zona sul; e Freguesia do Ó, Taipas e Brasilândia, na zona norte. São áreas que, historicamente, também apresentam elevados índices de vulnerabilidade social, precariedade urbana e ausência de investimentos públicos.

Produzido pelo Fórum Popular de Segurança Pública e Política de Drogas de São Paulo (FPSPPD-SP), o levantamento sistematiza registros oficiais de ocorrências para monitorar a dinâmica da letalidade policial e contribuir para o fortalecimento do controle social sobre as políticas de segurança pública. A pesquisa adota a metodologia desenvolvida pelo projeto Os 9 que Perdemos, do Centro de Antropologia e Arqueologia Forense da Unifesp (CAAF/Unifesp), descrita na cartilha Passo a Passo: Monitore a Letalidade Policial no seu Território.



Baixada Santista: os mesmos batalhões, os mesmo padrões

Na Baixada Santista, a permanência deste padrão aparece de forma expressiva.

Em 2006, a maior concentração de mortes ocorreu nas áreas de atuação do 6º BPM/I (Santos), 21º BPM/I (Cubatão, Guarujá e Bertioga) e 39º BPM/I (São Vicente). Vinte anos depois, esses mesmos batalhões continuam entre os que registram os maiores números de mortes decorrentes de intervenção policial na região. Em 2025, o 6º BPM/I lidera o ranking, com 14 mortes, seguido pelo 21º BPM/I, com 13, e pelo 39º BPM/I, com 8.

Tabela Ranking dos Batalhões mais letais da Baixada Santista 2025 (pág. 11)
Tabela Ranking dos Batalhões mais letais da Baixada Santista 2025 (pág. 11)

Essa permanência ajuda a compreender uma das principais formulações construídas pelas Mães de Maio: a chamada "democracia das chacinas". O conceito parte da constatação de que episódios de violência policial em larga escala não constituem exceções, mas tendem a se repetir em determinados territórios, atingindo, de forma recorrente, populações periféricas.

Casos recentes reforçam essa leitura. A Operação Escudo, em 2023, deixou 28 mortos. No ano seguinte, a Operação Verão resultou em 56 mortes. Embora ocorridas em contextos distintos dos Crimes de Maio, ambas concentraram seus impactos nos mesmos municípios que historicamente registram elevados índices de letalidade policial.


Capital paulista: quando os territórios mudam, mas a lógica permanece

Na capital, a distribuição territorial apresenta algumas mudanças, mas preserva elementos importantes de continuidade.

Os batalhões que concentraram parte significativa das mortes em 2006, como o 38º BPM/M, na Zona Leste, e o 18º BPM/M, na Zona Norte, permanecem entre os mais letais em 2025. Segundo o Mapa da Letalidade, o 38º BPM/M registrou 13 mortes decorrentes de intervenção policial e o 18º BPM/M, 10.

Tabela Ranking dos batalhões mais letais da Capital 2025 (pág. 20)
Tabela Ranking dos batalhões mais letais da Capital 2025 (pág. 20)

Ao mesmo tempo, novos territórios passaram a concentrar a letalidade policial. O principal exemplo é a área do 16º BPM/M, responsável pelo policiamento de bairros como Campo Limpo, Jardim Ângela e Paraisópolis. Embora não figurasse entre os batalhões com maior número de mortes em 2006, o 16º BPM/M passou a ocupar posição de destaque ao longo da última década e lidera o ranking em 2025, com 28 mortes.

Essa transformação dialoga com mudanças ocorridas no próprio território. Pesquisadores apontam que a reorganização da dinâmica criminal em Paraisópolis, associada ao fortalecimento da presença policial e à intensificação de operações na região, ajuda a compreender esse deslocamento da letalidade. O episódio mais emblemático foi o Massacre de Paraisópolis, em 2019, quando nove jovens morreram durante uma ação da Polícia Militar no Baile da DZ7.

Ainda que novos territórios passem a concentrar parte das ocorrências, o padrão permanece semelhante: operações intensivas em áreas periféricas, baixa responsabilização pelos episódios de violência e recorrente vitimização de jovens moradores dessas regiões.


O perfil das vítimas permanece o mesmo

A permanência deste padrão também aparece quando se observa quem são as vítimas.

Segundo o Mapa da Letalidade 2025, pessoas negras representam 66,7% das vítimas de mortes decorrentes de intervenção policial na capital paulista e 63,27% na Baixada Santista.

Gráfico Raça/Cor das Vítimas de letalidade policial na Capital


Gráfico Raça/Cor das Vítimas de letalidade policial na Capital (pág. 19)
Gráfico Raça/Cor das Vítimas de letalidade policial na Capital (pág. 19)

Gráfico Raça/Cor das Vítimas de letalidade policial na Baixada Santista (pág. 10)
Gráfico Raça/Cor das Vítimas de letalidade policial na Baixada Santista (pág. 10)

O perfil é semelhante ao observado nos Crimes de Maio e em episódios posteriores, como o Massacre de Paraisópolis: predominam jovens negros residentes em territórios periféricos.

Mais do que uma característica demográfica, essa recorrência indica que a letalidade policial não se distribui de forma homogênea pelo território. Ela incide de maneira desproporcional sobre determinados grupos sociais e regiões da cidade, revelando a permanência de desigualdades raciais e territoriais na atuação das forças de segurança.



Mães de Maio: quem sustenta essa memória


Vinte anos depois, os Crimes de Maio seguem sem responsabilização definitiva. Ainda assim, a memória das vítimas não desapareceu. Ela continua sendo preservada principalmente pelas famílias que transformaram o luto em mobilização política.

O Movimento Independente Mães de Maio surgiu em 2006, após a morte de centenas de pessoas durante os Crimes de Maio. Inicialmente formado por mães e familiares de vítimas da Baixada Santista e da capital paulista, o grupo tornou-se uma referência nacional na denúncia da violência de Estado, na defesa da memória das vítimas e na busca por verdade e justiça.


Entre suas principais lideranças está Débora Maria da Silva. Seu filho, Edson Rogério Silva dos Santos, gari de 29 anos, foi morto por policiais em Santos quando voltava do trabalho. Segundo relatos da família, ele estava de atestado médico e não possuía qualquer relação com os ataques atribuídos ao PCC que antecederam as execuções.


A partir da própria experiência, Débora reuniu familiares de outras vítimas e ajudou a construir um movimento que, ao longo de duas décadas, passou a documentar casos, acompanhar investigações, pressionar instituições públicas e preservar a memória dos Crimes de Maio. Mais do que manter viva a lembrança das vítimas, as Mães de Maio denunciaram e seguem denunciando que a violência de 2006 não era um episódio isolado, mas parte de uma dinâmica recorrente da segurança pública paulista. É justamente essa hipótese que os dados da segunda edição do Mapa da Letalidade Policial por Batalhão permitem observar.

Vinte anos depois, o que mudou?


A diminuição do número absoluto de mortes não foi acompanhada por uma mudança equivalente na distribuição territorial da letalidade nem no perfil das vítimas. Os municípios mais afetados por MDIPs na Baixada continuam sendo Guarujá, Santos e São Vicente, enquanto jovens negros moradores das periferias seguem representando a maior parte das pessoas mortas em ações policiais.


A própria reconfiguração territorial das ocorrências sugere que fatores conjunturais, como o aumento da visibilidade pública das operações policiais e a ampliação do escrutínio institucional,  podem influenciar nas oscilações anuais dos indicadores. Ainda assim, essas mudanças não parecem alterar as estruturas que sustentam a letalidade policial nem eliminar o risco de novos ciclos de intensificação da violência.


Por isso, o monitoramento contínuo e a divulgação periódica desses dados permanecem fundamentais. Mais do que acompanhar estatísticas, iniciativas como o Mapa da Letalidade Policial por Batalhão fortalecem a luta por mais controle social sobre as políticas de segurança pública, qualificando o debate público e contribuindo para preservar a memória das vítimas e o direito à verdade, à justiça e à não repetição.


Redação: Maria Luisa Valentim

 
 
 

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